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Elmellinn
Capitulo I

- Por Alexandre Xavier

O sorriso não era nada mais que um escárnio.

O corpo da bela elfa caiu com um baque seco aos pés da figura envolta em suspense.

O cenário a volta era horrendo, uma pilha de corpos se amontoava no caminho entre a maligna entidade e um guerreiro que, apoiado em sua espada, ofegava segurando o peito chamuscado enquanto suas lágrimas atingiam o chão.

- Helennath... - Gemia o guerreiro entre os dentes.

- Meu caro Galthalonn... – rasgava o ar a voz rouca do antagonista em seu manto negro como uma noite sem a lua e sem as estrelas – Você sabe o quanto é difícil o nascimento de gêmeos em nossa raça?

Como resposta pôde-se ouvir apenas o rosnado do guerreiro e um olhar de profundo ódio.

- Foi apenas uma pergunta retórica Galthalonn... - respondeu o vilão dando com os ombros com se fosse apenas uma conversa corriqueira - Afinal, eu nunca esperaria que você soubesse a resposta – concluiu ele enquanto se encaminhava para o par de berços no fundo do grande salão.

- Afaste-se de meus filhos monstro! – A resposta de Galthalonn era apenas um sussurro, mas fez com que seu inimigo detivesse seu caminho para se voltar e olhá-lo de frente. A luz das chamas que crepitavam nas paredes destruídas revelou parcialmente o rosto do maligno inimigo. Sua pele murcha sobre a carne ressecada revelava a natureza não viva da qual ele fazia parte.

- Sabe meu jovem Galthalonn – disse ainda olhando para o guerreiro com seu sorriso cínico nos lábios ressecados – Você e Helennath foram os quintos...

- Os quintos gêmeos amantes que se opuseram a mim! OS QUINTOS! – disse enfaticamente – Nunca imaginaria que me dariam tanto trabalho! Quando abracei a necromancia nossa Deusa criou vocês por medo de mim! HÁ! MEDO! Medo deste que deveria ser seu mais belo filho. Mas eu nunca me limitaria a estar aos pés dela! NUNCA! Meu destino é ser grandioso e é isso que eu tenho buscado nos últimos séculos.

- Grande idéia ela teve – disse enquanto cuspia as palavras com desprezo - Imbuir gêmeos com poder para me atrapalhar e não importa o quão perto eu esteja de matá-los, sempre nascem mais! Pois bem. Agora chega. – concluiu o necromante voltando sua atenção ao seu objetivo original.

Com um salto, o guerreiro elfo usou suas últimas forças num derradeiro ataque ao inimigo, mas foi parado no ar quando o mago negro agarrou seu pescoço com velocidade sobre humana.

- Desista Galthalonn! Finalmente encontrei minha vitória sobre nossa Deusa! Mesmo com suas intervenções impertinentes meu poder só tem crescido nas últimas centenas de anos e essa é exatamente a hora em que vocês são mais fracos! Enquanto seus poderes estão divididos com a nova geração!

O Necromante arremessou o guerreiro como se não fosse mais que um boneco articulado, que bateu com violência na parede e escorreu para o chão. Cada respiração era um esforço impar, mas a vida já escapava entre os dedos de Galthalonn como grãos de areia.

Enquanto isso, passo a passo, a mórbida figura se aproximava dos berços. Só agora o choro das crianças pôde ser ouvido. Como se a proximidade do bruxo fosse sensível por elas. Os dedos ossudos se aproximavam por segundos que pareciam horas até que algo aconteceu.

Com a proximidade da primeira criança a mão começou a queimar. Uma fumaça fétida empestou o ar e o mago recolheu o braço abraçando-o e praguejando – Maldição!

Um baixo riso ressoou no ambiente – Emaellenne já abraçou sua parcela de poder Nevastus! – As palavras do elfo estendido no chão eram proferidas entre gemidos – E quando somos crianças, a inocência é um potente combustível para a benção de Sallena.

- Não! – Urrou NevastusNão vou deixar outro par de moleques atrasarem meus planos de novo! Você não está entendendo!!!! Esse mundo será meu! E meu exército de mortos marchará sobre os humanos, sobre os anões, sobre nossos primos em terras distantes! Porque sua pífia resistência acaba hoje! HOJE!

- Você sabe que sua bravata não passa disso! Enquanto existir os irmãos amantes, nosso povo terá fé e nós resistiremos! Não importam quantos de nós sejam trazidos de volta por você para nos atacar, nos sempre resistiremos!

O necromante termia de raiva – Cale-se! Nem tudo está perdido! Você ainda vive! E por mais que a inocência proteja suas crias de uma investida direta, o menino ainda está com seu poder reduzido. Você ainda vive Galthalonn! – O sorriso cínico voltara a seus lábios – E a “profecia” de vocês diz que os gêmeos me derrotarão! O que vocês farão se não existir mais gêmeos? Será que um só de vocês pode sustentar essa mínima esperança do nosso povo?

O silêncio do nobre guerreiro serviu como resposta.

- Zalakanefast vanish le thar garethoo... – as palavras ancestrais, ditas acompanhadas de gestos, libertaram das pontas dos dedos do bruxo uma luz negra e nodosa que se arrastou até o segundo berço, envolvendo-o por completo e desaparecendo em seguida.

- Agora seu precioso Elmellenn não está mais entre nós Galthalonn e com um pouco de sorte ele será devorado por alguma criatura abissal – Depois de dizer isso, apenas virou-se e saiu da sala desaparecendo envolto pelas brumas da noite. Mas nada disso foi visto por ninguém, pois para trás, restara além da pilha de corpos, o choro de uma criança, separada de sua alma gêmea.

.....

O ódio que sentia era imenso.

Seu nome era Tomé, um humano muito mais fedorento do que todos os outros. Mas, por mais que se incomodasse não sabia porque, para seus sentidos, o cheiro dos meninos no orfanato era tão forte.

O suor e o sangue nublavam seus olhos, mas ele sabia que Tomé estava em pé, rindo dele enquanto ele estava prostrado no chão e o resto dos meninos gargalhavam. E isso só fazia com que seu ódio fosse maior. Ódio pelos pais que o havia abandado, ódio pelo casal que o recolheu na estrada apenas para largá-lo naquele lugar infernal, ódio por Tomé e seu bando... Mas principalmente, ódio por si próprio pelo simples fato de ter nascido diferente.

Sua fisionomia exótica e delicada, as orelhas afiladas, seu corpo esguio e fraco o tornara um alvo fácil. Mais ainda, o alvo ideal. Ele resistiu no início, mas a força e o maior número o sobrepujara tantas vezes que ele nada mais fazia para enfrentar seus antagonistas.

Mas Llenn – como era chamado desde que ali chegara - aprendeu com o tempo. Descobriu que seu corpo, apesar de frágil, era bastante flexível e rápido. Assim, escondido dos outros meninos, durante as altas horas da madrugada em que não sentia sono, trabalhou seu corpo da melhor maneira possível. E aquele dia seria o último em que Tomé e seu bando o provocaria.

Llenn levantou-se devagar e, entre os dentes, ainda de cabeça baixa disse – Chega! – a princípio se fez o silêncio, apenas para ser quebrado poucos segundos depois com uma explosiva gargalhada do robusto garoto em sua frente – Olhem só rapazes! O pequeno orelhudo arrumou alguma coragem afinal!

A nova gargalhada geral foi interrompida abruptamente depois que, com um violento chute, Llenn vez Tomé curvar-se sobre o próprio corpo com as mãos entre as pernas. Os amigos do valentão partiram em seu socorro, mas logo recuaram aterrorizados quando o primeiro caiu para trás depois de levar um soco no pescoço e o seguinte um novo chute no joelho e ficou rolando no chão gritando de dor.

- Eu disse chega! Nunca mais você vai falar assim comigo Tomé! Nunca está me ouvindo! E nunca mais encostará um dedo se quer em mim, pois, se fizer, o quebrarei! – Llenn ainda cuspia sangue enquanto puxava a cabeça de seu arqui-rival para trás pelos cabelos, mas a dor do nariz - várias vezes quebrado - não o incomodava mais. Apenas o jubilo fazia com que sua cabeça fosse as nuvens.

Ele poderia ter feito isso antes, mas queria ter certeza de que não haveria chances de perder. Sabia que uma resistência sem vitória o levaria a mais humilhação e dor. Além do mais, ele tinha planejado tudo para que sua reação fosse vista pelo maior número de pessoas possíveis! Llenn finalmente tinha aprendido: Muito mais do que contar com sua agilidade, ele devia contar com sua inteligência! Saber a hora certa de recuar e de atacar.

É claro que houve algumas tentativas de desforra, mas Llenn estava sempre atento e, depois de algumas investidas equivocadas de seus adversários, finalmente foi deixado em paz e acabou se tornando o mais temido por todos no orfanato.

Não demorou e o jovem elfo desgarrado entendeu que, apesar de ter se livrado da humilhação e da dor, sua vida não se tornara melhor. Continuava sem amigos, sem namoradas, sem parentes. A única coisa que ele sabia sobre suas origens era parcialmente o próprio nome. A pequena placa que trazia em seu pescoço tinha as insígnias as quais um padre local identificara como élfico e a única coisa que conseguira ler foi foi o nome que ele passou a usar: Llenn.

.....

Atingir a maior idade humana não foi tão bom como deveria ser. Dezoito anos se passaram e ele continuava com aparência de um menino. Os responsáveis acabaram deixando que ele ficasse mais tempo e os anos se passam até Llenn tornar-se um mito no orfanato “O menino que não envelhece” era como as outras crianças órfãs, sem a ciência de quanto vive um elfo, o chamavam.

Ele viu seus contemporâneos humanos um a um sair do orfanato. E depois, gerações se passaram, as crianças vinham bebês e saiam enquanto Llenn estava lá. Ele tentou aproveitar o tempo da melhor forma possível, ajudava os responsáveis e depois de anos se acostumou com aquela vida. Mas em seu aniversário de 100 anos, foi decidido entre os diretores do orfanato – a segunda geração que ele conhecera - que era a hora do jovem elfo seguir com sua vida.

Assim sendo, com pouco depois de completar uma centena de anos Llenn foi abraçado pelo mundo. Na verdade, foi quase engolido...

.....

Nem um ano havia passado e Llenn já se tornara um mendigo. Toda sua nobreza élfica ficava escondida debaixo da faixa que disfarçava suas orelhas e o nariz quebrado que o deixou desfigurado para os padrões élficos para sempre. Para sobreviver, acabou vinculando-se a uma guilda onde desenvolveu algumas habilidades de ladinagem graças a sua destreza nata.

Também graças as suas experiências passadas, aprendera a detectar vítimas ideais com o mínimo de risco possível e ganhou respeito entre os batedores de carteiras da região. Porém, mesmo com toda a fama e habilidade, a dívida que adquiriu com os líderes da guilda nunca chegava ao fim. Era fato que a guilda se tornou sua família e, apesar de nunca ter feito um amigo de verdade, conheceu algumas pessoas muito interessantes. Mas os juros de uma cama e pão duro do início eram grandes demais para a participação a qual era obrigado a doar ao grupo.

Mesmo assim, Llenn seguiu a vida, não tinha para onde ir e ficou alguns anos galgando os lugares de destaque do grupo de ladrões. Teve a oportunidade de conhecer outras raças como semi elfos e haflings. Uma vez chegou a encontrar um outro elfo também. Mas este o tratou com desprezo graças ao estado a qual se encontrava.

Seu orgulho foi atingido de forma fatal quando o elfo que era chamado por todos de “Vulto da Noite” respondeu as tentativas de aproximação de Llenn dizendo: - Saia de perto de mim! Você na minha opinião é pior que um semi elfo! Eles não tiveram a opção de não serem mestiços, mas você? Você se rebaixou ao mais fundo fosso de esgoto que pode existir!

Llenn nunca tinha pensado em matar até aquele dia, mas seu lado estrategista falou mais alto e tentou esquecer o elfo assassino. Além de muito mais experiente que ele, tinha o apreço dos membros mais importantes da guilda. Porém, mesmo tentando, as palavras de seu irmão de raça nunca mais deixaram de ecoar no fundo de coração.

Alguns meses depois, Llenn foi emboscado em um prodigioso assalto. Enquanto pulava pelos telhados da cidade perseguido pela milícia local tinha apenas uma certeza: Havia sido traído! Já há algum tempo, suas atividades deixaram de ser admiradas para serem invejadas dentro da guilda. Ele sabia que mais cedo ou mais tarde isso aconteceria, mas calou seus instintos precoces com a ganância e o orgulho e por isso, mais uma vez se odiou por se deixar encontrar naquela situação.

Depois de uma fuga desesperada pela floresta e em seguida dois dias escondido em um tronco oco de uma árvore podre, Llenn pode dizer que havia escapado. Mas pouco pode fazer depois disso. A flecha cravada em seu flanco esquerdo devorava sua vida a cada minuto. Conseguiu chegar até um riacho próximo de seu esconderijo, mas a escuridão se abateu sobre ele e Llenn acreditou que havia chegado sua hora.

.....

Sem saber quanto tempo havia passado. Llenn acordou em uma cama de palha improvisada. As paredes revelavam apenas que se encontrava dentro de uma caverna ou gruta, mas o que mais lhe chamou a atenção foi o cheiro da carne preparada na fogueira próximo da entrada. O vulto agachado próximo ao fogo notou que seu protegido recuperara a consciência e se dirigiu imediatamente a ele em passos lentos.

- Vejo que tive sucesso em arrancar-te dos dedos frios da morte jovem rapaz! – disse o homem, que apesar de andar devagar e curvado como um velho, tinha um rosto liso e um sorriso límpido como que saído da puberdade.

- Quem é você?

- Thejeldrienn, mas pode me chamar apenas de Thej! Bem vindo a minha morada jovem...? – agora, sentado em um banco improvisado na cabeceira da cama, Llenn pôde notar as orelhas de seu salvador. Este era, como ele, um elfo.

- Llenn, pode me chamar de Llenn – respondeu ele meio desconfiado.

- Llenn? Um nome um tanto quanto diferente... Você foi criado entre humanos meu jovem?

- S-sim, não sei meu nome de origem. A única coisa que me restou de meus pais foi esta placa, mas nunca encontrei quem traduzisse para mim - Disse tirando de dentro de uma bolsa de seu cinto o velho medalhão, sua única herança.

- Elmellenn D´altharjionn! – Leu o elfo com um sorriso – Este é seu nome de nascença: Elmellenn D´altharjionn! Muitas décadas se passaram desde que eu ouvi pela última vez o nome de sua família... – Disse com o olhar para o vazio, mais para si próprio que para o convalescente a sua frente.

- O senhor conheceu minha família? – Um fogo que Llenn nunca sentira antes reavivou em seu peito! Ele sabia seu nome e poderia quem sabe encontrar sua família! Sua verdadeira família!

- Sim, mas isto foi há muito tempo atrás. Quando adoeci impus a mim mesmo o banimento para proteger meus irmãos e nunca mais tive contato com nenhum deles...

- Doença?

- Sim meu jovem – Suspirou Thej encolhendo os ombros – Uma praga se apossou de meu corpo e a cada dia que passa ela consome minha carne e apenas com um tratamento extremamente exaustivo eu posso estar aqui falando com você.

Alguns momentos de silêncio se passaram antes que o elfo mais velho dissesse – Mas não percamos tempo falando disso! Fale-me de você e como você foi parar naquela poça de sangue na qual encontrei você!

Llenn sentia-se estranhamente à vontade com aquela figura sofrida a sua frente, finalmente se identificara com alguém, alguém que foi obrigado a viver longe dos seus! Contou tudo ao velho. Começou a falar da guilda, mas depois, voltou mais no tempo e disse dos anos que passara no orfanato. Em contra partida o velho o acolheu e deixou que dividisse seu exílio pelo tempo que conviesse ao jovem elfo.

Meses se passaram e finalmente Llenn pode conhecer sua raça, aprendeu detalhes da cultura élfica, aprendeu a estudar mapas. O velho, se valendo de magias, mostrava imagens dos lugares que conhecia indicando no mapa suas reais localizações, também conheceu Sallena a linda e benevolente Deusa que protegia os elfos. Até mesmo o uso do arco e do machado Thej ensinou a seu novo companheiro, mesmo que depois de algum tempo de treino fosse acometido de terríveis dores graças a sua doença misteriosa.

Por mais que Llenn o interrogasse sobre o fato, o velho elfo sempre fazia questão de ser evasivo. Garantiu apenas que não era contagioso, mas que ele deveria ficar atento às crises. Pois se a doença vencesse, Llenn deveria decapitar e queimar seu corpo para evitar que a mazela se espalhasse. Toda vez que Thej mencionava tão nefasto tratamento, Llenn tentava mudar de assunto. Mesmo assim, por mais de uma vez ele fez com que o jovem prometesse que o faria e Llenn acabou aceitando.

Se não fosse a preocupação que a doença causava, teriam sido tempos tranqüilos na vida do jovem elfo. Aprendera a ler e escrever em diversas línguas descobriu que devia respeitar e amar as divindades e viu que a fé, direcionada da maneira correta podia realizar grandes feitos, pois a Deusa era intimamente ligada a seus filhos. Thej ensinou tudo que pode, ervas, plantas, animais, os caminhos da natureza, às vezes brincava que Llenn poderia ser um Druida tão bom quanto ele um dia. Mas Llenn desenvolveu um apreço muito grande pelas armas, treinava hora com a foice hora com o machado, gostava mais deles do que das facas que havia aprendido a usar muito bem na guilda. Cultivou também sua derradeira paixão: O arco.

Três longos anos se passaram e, apesar da aparência um tanto quando desgrenhada, Llenn finalmente se via como um elfo. Havia ganhado a devida postura, mas não perdeu os vícios e os trejeitos humanos. Thej não se importava, dizia que seria útil para o jovem saber como se portar nos dois mundos.

Mas na madrugada em que completou três anos ao lado do velho Thej, Llenn foi acordado por um estranho ruído que vinha do leito de seu amigo. Assustado com os sons grotescos que o gentil elfo emitia, o jovem se aproximou com cautela. Ao encostar no mestre, sentiu que o corpo se encontrava frio, mas empapado em suor. Assustou-se quando os olhos do velho se abriram e de repente, agarrou-lhe o braço.

- Você prometeu Llenn!!! – Gritou o velho com a voz febril – Cumpra sua promessa! Não tenho mais tempo meu jovem amigo! Corte minha cabeça agora!

-Você enlouqueceu velho? – Espantou-se Llenn – É só mais uma crise! Você vai melhorar logo!

- Cale-se e cumpra o que prometeu! Você nunca deve quebrar uma promessa está me ouvido!

- Thej...

- Pegue o machado agora! – Llenn atendeu mais por susto do que por intencionar realizar os desejos de seu mestre. Ergueu o machado de forma relutante enquanto lagrimas rolavam por sua face.

- Llenn – disse o velho com estranha serenidade depois do ataque agressivo que promovera a pouco – Antes que continue, preciso que você faça uma nova promessa em meu leito de morte.

- Diga logo velho! – Gemeu o jovem sem conseguir controlar o sofrimento.

- Não guarde dívidas! Não faça nunca mais o mal!

- Como assim?

- É isso mesmo que você está ouvindo! – gritou ele voltando a sua onda de hostilidade – Você deve se manter no caminho dos justos! Ajudar os fracos e, principalmente, corrigir qualquer erro que você já cometeu em vida!

- Do que você está falando velho!

- PROMETA!

- Eu... Eu prometo Thej, meu mestre, em seu leito de morte, prometo escolher o caminho dos justos e corrigir todos os erros do passado e qualquer outro que eu venha a cometer involuntariamente no futuro – Llenn concluiu, espantado com o pequeno discurso que fizera, como se as palavras sempre estivessem ali, esperando apenas pra serem ditas.

- Um futuro grandioso te aguarda jovem Elmellenn D´altharjionn! Agora posso morrer em paz, minha última dívida está paga...

- O que você quer dizer com isso Thej? – Mas antes mesmo da pergunta ser formulada, a chama da vida já tinha abandonado as pupilas do elfo ancião.

Llenn deixou-se desfalecer no chão, sentado com o machado sobre os joelhos chorou pela única pessoa que o tratou como um parente à pessoa que aprendeu a amar como pai.

O elfo não soube definir quanto tempo havia passado. Mergulhado em lembranças, sentimentos, o tempo correu enquanto estava alheio. Subitamente, algo inesperado aconteceu. O corpo de Thej movera.

- Thej? – Disse Llenn com um pulo para debruçar-se sobre o corpo do caro amigo. Mas algo estava estranho, ele podia sentir uma energia suja exalando da carcaça de seu mestre, algo que sempre esteve ali, mas estivera contida por todo esse tempo.

Com um susto o elfo deu um salto para traz e se pos em posição de defesa. Thej - ou fosse lá o que fosse agora – sentara-se na cama. Fitava a parede da sua caverna como uma criança que acabara de descobrir o mundo. Quando olhou para Llenn, ele pode ver que as pupilas não mais existiam, apenas uma camada branca leitosa ocupavam o que antes foram os olhos do ancião.

Ele se levantou devagar e as cobertas caíram no chão revelando a doença que consumia o pobre elfo. Seu corpo apodrecera, aos poucos, com o passar dos anos, parte por parte. Chagas espalhadas expeliam um odor fétido no ar e só então Llenn entendera porque o velho insistiu tanto em lhe ensinar sobre mortos-vivos...

Arrancado de seus devaneios pelo grito inumano da criatura a sua frente, Llenn por instinto de defendeu do ataque de seu oponente. Em seguida, a cabeça sem vida do mestre elfo rolava pela caverna.

.....

Contos


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